segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A complicada arte de ver

Ver ou enxergar? enterder os pormenores, ver a vida com outros olhos...simplesmente me apaixonei por esse texto de Rubem Alves que agora divido com vocês.





Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões - é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... “Agora, tudo o que vejo me causa espanto."

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta...” .Os poetas ensinam a ver".

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a
beleza. Só viam o lixo.

Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido.

Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-nos subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção":"De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa, garrafa, prato, facão, era ele quem fazia.

Ele, um humilde operário, um operário em construção". A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados.Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário.Mas é muito pobre.

Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, como Jesus Cristo, tornado outra vez criança: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores.Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".

Por isso, porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver. Eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...



texto de Rubem Alves

4 comentários:

Max Coutinho disse...

Oi Dri!

Que post lindo, amiga! É de uma sabedoria incrível!
Há uns anos atrás, quando me iniciei no caminho místico, a minha mestre (de então) disse-me que a primeira coisa que eu deveria fazer era aprender a ver com os olhos da alma. Ela disse-me também que os olhos físicos limitam a visão e, que ver com os olhos do espírito permitir-me-iam ver melhor a vida.

Sou uma grande fã de Fernando Pessoa e Alberto Caeiro (mais a sua defesa ao não pensamento lol) interessa-me imenso...

As crianças vêem a vida de um modo mais mágico (ou seja, elas vêem a vida como ela é) enquanto os adultos só vêem a ilusão (porque escolhem o que querem ver e quando lhes convém ver).

Parabéns, amiga :D!

Beijos

DILERMArtins disse...

Mas bah, guria.
Teus comentários estão desaparecendo?
Tenho certeza que comentei a postagem abaixo e agora vejo que não está lá.
Bem, vai lá, a minha palavrinha mágica é Oi! Sempre, ou quase sempr, funciona.
Já sobre educação como disse mestre
Gilberto; "Educador não é quem ensina e sim aquele, que de repente, aprende".
Abração!

Adriana disse...

Oi Max
O texto é realmente lindo!não é apenas escrever, mas escolher as palavras de forma que fique interessante, inteligente.
ah, sim, os olhos do espírito enxergam com menos interferências.
Os olhos das crianças... e pensar que já os tivemos.

beijos amiga

Adriana disse...

Oi Diler
Os comentários apareceram...tive alguns probleminhas com a internet, mas já está tudo certo.
Então, não é que funcionam, é tão agradável receber um "OI" um ola, isso é muito bom e não dói...
Isso mesmo o verdadeiro educador não é esquecido, ele deixa sua marca no aluno, e é verdade aprende muito ensinando.

Uma ótima semana, Diler.