segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Nas tramas da vida

O dia já se passara e com aqueles últimos raios que ainda clareavam precariamente a varanda dona Neca tecia seus últimos pontos na imensa colcha de crochê que a meses se dedicava.

Ponto aqui outro ali apertava a vista que muito já não ajudava para aproveitar esses últimos momentos, aquela sim, seria uma bela colcha, de muitas que fez durante sua vida, vida longa, sofrida, passada com sacrifícios para criar os filhos, agora já não tinha muito valor, estava ali meio que esperando que algo maior lhe acontecesse, que tirasse aquele peso que sentia no corpo, talvez o peso de sua história contada e vivida através de cada ruga de seu rosto, quantos momentos vividos, muitos sonhos se foram sem ao menos serem iniciados e quantos outros que ela desistiu de sonhar por achar que não valia mais a pena, mas se tinha algo que a fazia mergulhar em seu mundo era seus bordados, tecia crochê, macramê, ponto cruz, mas os tempos mudaram na sua época isso tinha valor, mulher ficava em casa cuidava dos filhos e tecia, tecia, Neca nunca se enquadrou muito nos padrões ela se achava sempre na contra mão, ficar em casa não foi para ela, teve de criar seis filhos sozinha encostando a barriga no tanque e no fogão, lavava roupa pra fora, se virava como dava, hoje não, não tinha mas filho para criar, não tinha mas tanque, pelo contrário seu filho mais novo lhe dera de presente de aniversário uma máquina de lavar roupas, mas que bicho estranho era aquele! Achava muito complicado, colocar sabão aqui, alvejante ali, apertar botões, esse povo de hoje! Tudo que inventam é a base de botões, botão para isso, botão para aquilo, dona Neca, não era mulher de botões, agradeceu, claro, seu filho ficou imensamente feliz por ter podido dar a ela aquela geringonça, dona neca esperava não ter ninguém por perto e lavava suas roupinhas na mão no seu velho e companheiro tanque, onde tantas vezes, chorou, lamuriou a vida, lamentou por tantas...

Agora dona Neca se levanta o sol não lhe permite mais bordar, a agulha calejada ainda repousa no novelo a espera de um novo dia onde dona Neca poderá continuar a tecer sua história, sua vida.


Adriana

4 comentários:

Chica disse...

Linda e comovente tua crônica.Adorei!

um beijo,tudo de bom,linda semana,chica

Erlon Andrade disse...

A dificuldades da vida fazem com que a maioria das pessoas se acostume com a realidade atual. Com certeza Dona Neca já estava tão acostumada com as mãos calejadas dos tempos passados e com os obstáculos que superou, que agora já era dificil mudar a rotina. Rotina essa que a fez vencedora, apesar de todas as dificuldades.
Exemplo para nós!

♥ Erika Saab disse...

Que lindo texto, Adriana, de uma sensibilidade incrível!Uma homenagem as muitas Donas Necas que existem por aí, que já contribuiram muito com a família, com seu suor e sua dedicação e hoje olham para este mundo com a mesma entranheza que ele olha para ela!

Max Coutinho disse...

Oi Dri!

Minha amiga, já estava com saudades :D!

Dona Neca fez mais uma coisa junto do seu companheiro tanque: orou e louvou a Deus todos os dias.

Amei este conto, Dri: reflecte a realidade de muitas de nós à volta do mundo; e ao mesmo tempo engrandece esse grande género que é o género feminino!

Beijos e bem-vinda de volta!

P.S: Adorei o novo look do blog! :D