sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Você gosta de papel de parede?

você gosta de papel de parede?

Foi com esta pergunta no mínimo estranha que ele falou com Ana pela primeira vez.

Era setembro, clima agradável, uma brisa leve e refrescante passeava entre as flores que surgiam pelos jardins.

Ana andava apressada, compenetrada segurando com desenvoltura, livros, cadernos e mais uma infinidade de trecos que necessitaria na aula de artes, caminhou até o ponto de ônibus, música nos ouvidos, cabelos longos sobre os ombros, olhos brilhantes que mostravam seus primeiros passos na juventude, saia, blusa de gola, ombros a mostra e mil pensamentos embalados na mente, foi quando uma voz a trouxe de volta ao mundo.

___Você gosta de papel de parede?

A princípio, Ana achou que não era com ela, não respondeu.

Ficou atenta, não pela pergunta mas pela surpresa de ter sido perguntada.

___Você gosta de papel de parede?

Era com ela. É estranho o efeito que um gesto inesperado pode causar numa pessoa. Ele não era gordo nem magro, nem alto nem baixo, cabelos castanhos cortados, jeans, tênis, vinte e poucos anos bem distribuídos e aproveitados, olhar a esmo como se refletisse filosoficamente sobre sua solene pergunta.

Ana balbuciou qualquer coisa sem importância e sem sentido, não sabia sobre papeis de parede, mais a pergunta a intrigou.

Os olhares se cruzaram e momentaneamente se questionaram sobre coisas distintas, ele na ânsia de ser respondido e ela na imensa curiosidade de ter sido perguntada, afinal o todo foi abalado,

Os olhares se afastaram e viram que ônibus distintos haviam parado, pessoas entrando e saindo mentes inertes vivendo o inevitável.

O dia assumiu seu rumo, livros, lições, leituras, amigas, papo, gente falando, gente correndo, gente trabalhando...

Outro dia nasceu, outra vez Ana viu-se na rotina de seu caminho, andou agora menos dispersa, o coração estranhamente bateu, a mão suou sobre o livro, mas porquê? No ponto as mesmas pessoas, os mesmos assuntos e nada...olhou para os lados na esperança que ele retornasse e se ele não aparecesse nunca mais, como ela conseguiria sobreviver com a incerteza do porquê daquele questionamento.

O ônibus no ponto, novamente gente entrando, ficou atrás, mas não aconteceu, entrou no ônibus meio decepcionada com o destino, destino este cruel que tinha lhe mostrado a cara e em seguida saído de fininho, sentou. Pessoas ainda entravam, se acotovelavam e se encaixavam nos espaços vazios, Ana olha pela janela, o ônibus da a partida e nada... o dia passa normalmente mas aquilo não lhe saia da cabeça deveria saber mais sobre papeis de parede? E se ele a perguntasse novamente seria interessante que soubesse algo sobre o assunto, mas por outro lado aquilo tudo poderia ser uma grande besteira, ele poderia nunca mais aparecer, ele nem sequer poderia lembrar de seu rosto, será? Mas Ana resolveu arriscar, pesquisou durante a tarde e viu uma infinidade de papeis, de bolinhas de florzinhas, rosas, azuis, mas porque aquilo? Ela não gostava nem um pouco de papel de parede, acho que seria mais interessante se ela falasse a verdade.

A tarde passou bem, saiu com amigos foram a lanchonetes, visitou um museu, mas seu mundo não era mais o mesmo...

Alguns dias se passaram, e nada daquele que ela esperava, passou vários dias, e como o tempo é implacável, esqueceu.

Mais uma manhã e Ana caminha com seus livros na mão, calça branca, sandália rasteirinha, uma pasta, pinturas, desenhos à carvão, aquarelas recém pintadas, para no ponto, gente falando, vários assuntos, burburinho, freios, buzinas, músicas aos ouvidos, que refúgio!

Uma mão a toca no ombro, os fones caem com uma virada súbita de cabeça

E então você gosta ou não de papéis de parede?

O ar lhe faltou neste momento, a vários dias que ela sabia exatamente o que dizer, mas agora! Agora ela não esperava.

___Si- si sim eu gosto, respondeu mesmo não sendo a verdade.

Um olhar meio confuso.

Ana começou a discursar, falou tudo que tinha pesquisado sobre o assunto, as últimas tendências, cores, modelos modos de aplicar, mas cada vez mais via um olhar distante, diferente daquele dia.

___Então você gosta. Porque eu não gosto muito e minha decoradora quer colocar no meu quarto, mas como você gosta tanto talvez eu coloque, quer tomar uma café comigo para conversarmos mais sobre o assunto?

___Adoraria.

2 comentários:

Chica disse...

Nooooossa, que coisa mais linda e ele, bem decidido!Adorei! beijos,chica

Max Coutinho disse...

Oi Dri :D!

Engraçado como o amor começa! Quando menos esperamos: poof! Aparece um indivíduo que diz uma frase tosca e assim se dá início a uma bela história de amor.

Agora pergunto: o que irá acontecer quando ele descobrir que ela não gosta de papel de parede? Sim, porque na primeira briga ela irá confessar lol...

Adorei, Dri! Gosto deste teu lado de romancista!

Beijos, querida!