terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Conto/ Os vizinhos

Este conto foi retirado do livro Apologos de Coelho Netto, um livro de contos de 1924.
Mais obras do mesmo autor podem ser encontradas em :http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaObraForm.jsp




Os vizinhos


— O’ João, se te fosse dado pedir ao

Senhor alguma coisa, que lhe pedias tu ?

— Eu? bem

pouco. Pedia-lhe

saude para mim e

para os meus, mais a

sua benção sobre as

minhas terras que,

d’uns tempos a esta

parte, andam bem

precisadas do favor

divino.

— Só isso?



Pois então se Deus apparecesse e

quizesse amercear-te, só lhe pedias essa

miseria?

— Para mim seria a melhor fortuna.

E tu?

— Eu? Ah! eu . . . Havia de pedir tanto

ouro, tanto! que eu e a minha gente, dia e

noite contando-o, não chegassemos, ao fim

da vida, a saber a somma exacta da nossa

fortuna.

— E para que tanto dinheiro?

— Ora! para ser o homem mais rico do

mundo.

— Mas não o mais feliz.

— Como não? Que entendes tu por

felicidade?

— Eu entendo que a felicidade é a saude

do corpo e a paz do espirito.

— Pois cá para mim é o dinheiro.

Quem tem dinheiro tem tudo.

— Nem tudo.

Entraram numa trilha que cortava o

cannavial viçoso.




Rompia clara e fresca a manhan.

Passarinhos cantavam nos ramos e as aguas

brandas que discorriam punham no ar

agradavel murmurio. O sino da igreja

rustica, onde os dois homens haviam ouvido

a missa do Natal, bimbalhava festivamente.

E elles lá iam com os seus altos cajados,

por entre as hervas discutindo a felicidade.

Os sitios eram contiguos: limitava-os

uma cerca de espinhos. Junto á primeira

porteira, o que ambicionava a fortuna

incontavel, despediu-se do companheiro.

— Então adeus, João. E olha que o

Senhor não ficaria mais pobre se quizesse

realisar o teu desejo. Adeus!

E o outro respondeu caminhando:

— E eu ficaria contente e renderia

commovidas graças á sua misericordia.

Entrou o ambicioso no terreiro do



seu sitio e, ainda não avistara a casa, quando

lhe pareceu ouvir alegre som metallico

como de peças de ouro que rolassem

tinindo. Estugou os passos ansiosos com o

coração aos saltos, e, ao chegar á varanda,

viu, sobre a mesa, um grande sacco

transbordando de ouro. E eram dobrões

novos, reluzentes como se houvessem

sahido, naquella mesma manhan, da

cunhagem. A mulher e os dois filhos

empilhavam as moedas, tanto, porém, que

viram o homem apparecer, correram a

annunciar-lhe a boa nova.

« Entrara ali um formoso menino e, sem

dizer palavra, deixára sobre a mesa aquelle

sacco de ouro. Como lidassem com elle para

que dissesse quem era, donde vinha, apenas

respondera: Que era portador dum presente

de Deus. E, com taes palavras,

desapparecera. »

Lembrou-se, então, o homem da conversa

que tivera com o vizinho e sorriu



pensando : « Se Deus assim tão de prompto

attendeu ao meu pedido avultado, por certo

não deixou o delle sem resposta. » Pobre

João! Como se ralará de inveja quando

souber da minha riqueza.

Logo, porém, sem agradecer ao Senhor

o generoso presente, disse para a mulher e

para os filhos:

— Bem. Não percamos tempo. Ha ahi

muito que contar. Vamos vêr quantos

dobrões ha no sacco, que nem por isso é tão

grande como podia ser. Em menos de meia

hora poderemos ter a tarefa acabada.

E os quatro, em volta da mesa, puzeram-

se a contar as moedas. Á medida que

perfaziam um conto separavam as pilhas e

assim cobriram a mesa e foram depois

arrumando nos aparadores e nos bancos.

Veiu a noite, e o sacco sempre a despejar

moedas.

Uma luz amarella aclarou o interior


da casa. As quatro criaturas allucinadas iam

e vinham acastellando dobrões. Os moveis

já estavam cobertos, passaram a juntá-los no

chão. E não sentiam os dias nem as noites:

contavam fascinadas pelo ouro.

A casa encheu-se. Arrastaram o sacco

para o paiol e o paiol ficou a deitar fóra.

Passaram ao moinho e abarrotaram-no;

recolheram ás tulhas, á abegoaria, a todos os

cantos onde pudessem enthesourar. Por fim,

como o sacco não se esvasiava, fôram

empilhando mesmo no terreiro e ao longo

dos caminhos onde as plantas haviam

mirrado.

João, o modesto, logo ao passar a

porteira do seu sitio, ficou deslumbrado

vendo os seus milhos ostentando pendões

viçosos, o seu feijoal alastrando, a sua vinha

carregada, a fonte manando copiosamente,

todo o seu gado nédio e luzidío, pastando

afogado em hervas


 
que haviam nascido em terreno sáfaro que

sempre respondera com ingratidão a todo o

tracto e ao mais penoso granjeio.

E ainda não sahira do pasmo quando viu

apparecer á porta do casebre, que uma

roseira recente floria e perfumava, a mulher,

que elle deixara no leito, tolhida e ardendo

em febre, rindo, robusta e córada, como no

tempo em que a vira, ainda donzella e a

pedira por noiva.

Comprehendendo immediatamente que,

em tudo aquillo, andara a mão benefica de

Deus, antes de acudir á mulher, que o

chamava, ajoelhou-se e agradeceu o

milagre. Erguendo-se, então, encaminhou-se

á casa e a mulher, atirando-se-lhe nos

braços, disse:

— Appareceu aqui um formoso menino

e, tomando do regador, que ali estava, sahiu

a regar as terras e, onde cahia a agua, fosse

entre pedras, logo



rebentava a planta. O gado, depois de beber,

de entrezilhado que estava, ficou assim

como o vês; os milhos murchos cresceram e

apendoaram ; o feijoal alastrou, o arroz veiu

logo a flux, as arvores cobriram-se de flores,

a fonte entrou a manar e, para maior espanto

meu, quando abri os paióes, vi que estavam

atulhados.

— E que te disse o menino?

— Sorriu e desappareceu; e foi o seu

sorriso que me poz como estou. Logo sentime

outra : pude andar e com tanta facilidade

e ligeireza que corri todo o sitio e vi que

todo elle está ricamente coberto de flores e

de frutos.

— Foi Jesus que aqui esteve, disse o

bom homem.

— Nem podia ser outro, confirmou a

mulher.

E João, pensando no vizinho, disse, sem

sombra de inveja:

— Se foi Deus que nos fez assim



felizes, tambem a sua graça deve ter

chegado ao nosso vizinho.

— Como sabes? perguntou a mu

lher.

E João narrou a conversa que haviam

entretido, depois da missa, atravessando o

cannavial que se dourava ao sol.

— Deve estar, a esta hora, a contar o seu

ouro.

— Não é mais feliz do que nós, disse a

mulher.

— Não é, de certo, affirmou João, vendo

chegar, a zumbir, um louro enxame de

abelhas procurando cortiço onde aboletar-se.

Correram dias, correram mezes. Todos

os sabbados João descia ao mercado e já

havia comprado uma carreta para transportar

os produtos da sua abençoada herdade, que

prosperava a mais e mais, quando, uma vez,

perguntaram-lhe pelo vizinho:



« Que era feito de tal homem que nao

apparecia? »

João sorriu lembrando-se da manhan do

Natal.

« Para que havia elle de incommodar-se

em lidas penosas se tinha, com certeza, mais

ouro do que todos os reis da terra? » Quiz,

entretanto, convencer-se e, esvasiada a

ultima ceira, subiu para a carreta resolvido a

passar nas terras do vizinho.

Logo que avistou a porteira travou-selhe

o coração presago. Um mattagal intonso

cobria os caminhos; os talhões, outrora

viçosos, desappareciam afogados em

urtigas. Nem uma ovelha balava e do

casebre não subia o fumo denunciador da

vida. Estava tudo entristecido e calado como

um cemiterio.

João foi guiando lentamente o animal e

o carro rangia por entre as hervas altas que

haviam reconquistado o terreno, dantes tão

rico em flôr e em fruto.


 
Diante da porteira desceu e, depois de

muito haver batido, resolveu penetrar com

um presentimento de desgraça. E foi.

O terreiro era um matto bravio. A

parietaria trepava nos muros tendidos do

casebre. Aves sinistras abalaram vendo

aproximar-se o homem curioso.

João, parando no terreiro, bradou para o

casebre escancarado. Não teve resposta.

Resolveu caminhar e foi.

Ouando chegou ao limiar da casa viu

pilhas e pilhas de moedas de ouro; tocando,

porém, em uma d’ellas estremeceu ao vê-la

desfazer-se em pó. Proseguiu.

Por toda a parte eram montões de ouro,

mas como as taboas do soalho oscillassem, a

fortuna logo rolava convertida em poeira. E

João seguiu até a sala de jantar.

Em volta da mesa estavam quatro

esqueletos curvados sobre montes de



esqueletos e esconder-se-lhe no craneo

como na propria lura.

Não se conteve então: recuando as


sombrado afastou-se da casa maldita e, mal

chegou á porteira, ouviu grande estrondo

como um desmoronamento. O casebre

aluira e uma poeirada negra escurecia os

ares.

João persignou-se e, subindo para a

carreta, tocou o animal fugindo áquelle sitio

malsinado, lembrando-se do ambicioso

desejo do vizinho, que Deus satisfizera:

«Tanto ouro, tanto! que elle e a sua gente,

dia e noite, contando-o, não chegassem, ao

fim da vida, a saber a somma exacta da

fortuna.» E ali tinham elles o ouro : poeira,

sómente poeira.

Os desgraçados haviam succumbido á

fadiga e á fome contando, sem pausa, as

moedas que inexoravelmente transbordavam

do sacco inesgotavel.

Quando avistou, por entre as arvores, a

sua cazinha alegre, toda em verdura, e viu o

seu gado robusto e a sua cultura exuberante,

de novo rendeu gra-


ças ao Senhor que ouvira o seu voto e lhe

recompensara largamente o desejo modesto,

dando-lhe a saude, que é a riqueza do corpo,

e a tranquillidade, que é a fortuna do

espirito.

E os seus haveres eram mais que sufficientes,

porque não só lhe davam para a

abastança como ainda deixavam sobras que

eram repartidas em esmolas.

E assim, acudindo ao pobre, demonstrava

ao Senhor a sua gratidão. E o outro, no

proprio premio tivera o justo castigo da sua

desmarcada ambição.

E foi assim que Jesus infante satisfez os

desejos dos dois vizinhos.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Coma e seja feliz /resenha


"Coma e seja Feliz" é um livro de 373 páginas escritas por Elizabeth Somer, que ao longo de seu desenvolvimento vai dando dicas de uma alimentação saudável que prioriza a felicidade e não só uma busca irracional por um padrão estético imposto pelo mundo atual.

O livro está dividido em 14 capítulos sendo os 11 primeiros entitulados como segredos. Segredo número 1, 2  e assim por diante e os restantes dão enfase a dieta do bom humor, e receitas que levam a este estado. A narrativa é bastante leve mas ao mesmo tempo fornece conhecimento sobre nutrição, neurologia, efeitos que os alimentos provocam no organismo, e em cada capítulo dá dicas de cardápios e mundaças de hábitos alimentares.

Alimentar-se vai muito além de comer, é uma questão de escolha, que envolve bom senso, e dependendo da escolha isto trará prejuizo ou benefício ao organismo, e como atuamos de forma complexa e interligada, a nutrição responde de forma direta a felicidade.

Qual o propósito da vida? a busca da felicidade? se for...a autora recomenda, trate de mudar suas escolhas alimentares, pois estas poderão deixá-lo mais feliz ou até meio triste.
"Você é o que você come" com essa afirmativa Elizabeth, dá inicio as explicações de como nos fazemos mal com nossas escolhas. Afinal trocar leite por refrigerente ou uma alimentação balanceada por fast-food terá alguma consequencia.

Mais adiante explica a estreita relação entre carboidratos e serotonina, os doces e o "barato"que eles provocam pode ser algo traiçoeiro.

Porque nos deixamos enganar com tantos alimentos industrializados, que são calorias vazias sem algo que realmente nos fará bem?, porque trocar uma fruta por batatas fritas, ou por sucos industrializados em caixas.

Temos que voltar a comer comida de verdade para nos sentirmos melhores, mas o que é comida? somos constantemente bombardeados com as intenções do mercado, que quase esquecemos, do que é realmente comida, e comemos de tudo que vendem nos mercados, cheios de sal, cheios de gorduras, cheios de açucar, mas então vem a questão do bom senso, o que devemos comer?

No livro em cada capítulo a autoras especifica o que é melhor como distribuí-los nas refeições e o seu ganho e perda de peso ao longo do tempo.
E desta forma ela vai desvendando os segredos dos alimentos e suas consequencias para o nosso humor.

O livro é interessante, pois nos dá uma visão de como nosso metabolismo age de acordo com cada alimento, qual a consequencia de seu uso e quais os efeitos a longo prazo, é recomendável a todos que buscam uma vida mais saudável, que querem manter-se em forma e mais feliz.


Adriana